CENTENAS
DE PESSOAS SE reuniram na tarde desta sexta-feira (29) na Avenida Frei
Serafim, em Teresina, para a primeira edição das Marchas das Vadias,
protesto contra o machismo e em defesa da liberdade da mulher.
Com mensagens pintadas nos
corpos e em cartazes, mulheres e homens- em sua maioria jovens e
universitários – caminharam em passeata pelo centro da cidade. “Entre um
homem e uma mulher só o que deve bater é o coração”, estampava uma
manifestante.
O termo “vadia” é forte e
espanta. A escolha é proposital. A ideia é mostrar que o tamanho das
roupas e o comportamento sexual, por exemplo, não podem ser usados como
pretextos para legitimar a violência contra a mulher. “Ser vadia é ser
livre”, explica a universitária Cacau Silva, 23 anos, que diz sempre
receber olhares atravessados por gostar de roupas que valorizam suas
pernas.
Criado
sob incontáveis paradigmas, o sexo feminino é pressionado a seguir
padrões de comportamento pautados no machismo. Se transa no primeiro
encontro, é vadia. Se beija mais de um na noite, é vadia. Se usa roupas
curtas, é vadia. Se luta pelos seus direitos, é mal amada. “Não queremos
nos prender a esses conceitos conservadores. A mulher quer e tem que se
libertar”, diz a universitária Jocélia Campelo, 19 anos. Estreando em
manifestações de rua, a jovem considera que a palavra “vadia” ajuda na
discussão. Por ser impactante, gera curiosidade e motiva o debate.
Grupos LGBTs também participaram
da manifestação. A violência com essa população é potencializada. “A
mulher lésbica é a única que sofre o que chamamos de estupro corretivo;
na cabeça do agressor, ela gosta de se relacionar com o mesmo sexo por
não ter encontrado o macho ideal”, denuncia Marinalva Santana,
representante do Matizes. A funcionária pública diz que o machismo e a
homofobia têm a mesma raiz, que é a “incapacidade de ver o outro como
igual”.
Mas esse não é um papo só das
mulheres. Tem tudo a ver com os homens também. É o sexo oposto quem mais
agride, assassina e desrespeita. “Macho de verdade não bate em mulher”,
afirma Ícaro Igreja, 30 anos. O estudante tirou a camisa e vestiu um
sutiã durante a marcha. Na barriga, a provocação: “Me estupre.”
Os
rótulos usados para taxar as mulheres – a exemplo de vadia e periguete –
são, na avaliação de Igreja, pretextos para legitimar ações violentas.
Na adolescência ele sofria agressões por ser nerd. E muitos homens ainda
usam justificativas dessa natureza para sustentar seu machismo. “Eles
dizem: ‘Se não tivesse vestida assim, não teria sido estuprada.’
Invertem e colocam a culpa da violência na vítima”, explica.
O promotor Francisco de Jesus,
40 anos, levou a filha caçula para a marcha. Andreia, de apenas três
anos, olhava atentamente a movimentação. Pai de quatro filhas, o
representante do Ministério Público levanta a necessidade de
conscientizar a sociedade para respeitar e proteger seus iguais. “Não
temos nem putas, nem santas, temos mulheres. É essa a visão que devemos
ter”, aconselha.
A síntese do que buscam esses manifestantes estava escrita nas costas de uma criança: “Liberdade é meu futuro!”
O Dia

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